Terça-feira, 29 de março. O Afroreggae lotou o Canecão para comemorar mais um ano de trabalho em favor do social e do cultural. Foi uma festa brilhante que ecoou em jornais e tvs pelo Brasil a fora, com destaque para um grupo de quase 30 policias militares de Belo Horizonte que surpreenderam toda a platéia no momento em que tomaram de “assalto” o palco do Canecão.
Eles e elas entraram fardados e armados com caixas de guerra e surdos, fazendo um tremendo barulho, comandados pelos regentes Altair e Paulo Negueba. E para a surpresa da platéia três policias subiram nos surdos e, dançando, tiraram a camisa da farda e exibiram uma camiseta com a marca do Afroreggae. O secretário de Direitos Humanos do Rio, senhor Jorge da Silva assistia a tudo com um largo sorriso, isso sem falar na alegria do Ministro Gilberto Gil que vibrava muito junto com a platéia!
E para quem não lembra, Paulo Negueba, um dos comandantes desta banda, é o mesmo jovem que há pouco tempo foi ferido por um tiro de fuzil disparado por policiais do Rio de Janeiro em uma operação em Vigário Geral, que por coincidência é a mesma favela que há doze anos sofreu com aquela que seria a maior chacina da cidade maravilhosa.
Na quinta-feira, dia 31 de março, a festa de 12 anos do Afroreggae continuou com uma série de shows, desta vez no Circo Voador. O Afroreggae orgulhosamente apresentou seus vários grupos: Trupe de Teatro, Afro Circo, Banda Makala, Afro Mangue, Kitoto, Afro Samba, e a já consagrada banda Afroreggae, com participações mais do que especiais. Entre elas, Leonardo Bricio, Preta Gil, Arlindo Cruz, Fernanda Abreu, Arnaldo Antunes, Gabriel Pensador, Falcão e muitos outros.
Como eu disse na começo, mais uma festa brilhante! Para um público igualmente brilhante que saiu das favelas para assistir aos seus iguais misturando-se a uma galera de classe média que, empolgada, não parava de dançar e de se encantar com tanta informação cultural trazida das favelas. A noite seria perfeita e hoje, dia 02 de abril, eu ainda estaria curtindo a vibração daquela noite, se não fosse os noticiários do dia seguinte que relatavam mais uma tragédia.
Desta vez, na Baixada Fluminense. Trinta pessoas brutalmente assassinadas sem direito algum à defesa, sem segurança policial. Aliás, os policias são os suspeitos da autoria de tamanha brutalidade, tamanha covardia. Um ato repugnante sem justificativa, pois as pessoas que foram mortas não tinham nada a ver com o crime. Que polícia será essa que nós, cidadãos, pagamos para nos matar?
Quero terminar dando os parabéns para o Grupo Cultural Afroreggae pelos doze anos de luta contra o apartheid social.
Ierê Ferreira.

|